23-10-2013/17:31:50
|
O pai queria que o primogênito se chamasse Euller, tal qual o Filho do Vento. A mãe bateu pé. Ganhou Josué, nome bíblico e livre de apelidos. Mesmo assim, Josué virou Alemão no pátio do Olímpico onde começou a circular feliz desde abril ao deixar a pequena Paraíso do Sul, no interior do Rio Grande do Sul, para realizar o sonho de ser jogador de futebol. E defender o Grêmio, clube do coração. O que virou o grande consolo, capaz de arrancar até um sorriso entre as lágrimas de Vanusa Drewanz, mãe do centroavante de 13 anos, atropelado próximo ao estádio no dia 9 e morto na última sexta, em história que comoveu o esporte gaúcho.
- Ele viveu aqui (em Porto Alegre) cada dia feliz. Realizou o sonho de ser jogador, de atuar no Grêmio. Cumpriu a sua missão - resigna-se, ao abrir seu apartamento a metros do Olímpico
O atropelamento que deixou Josué dez dias internado no Hospital de Pronto-Socorro ocorreu na avenida Azenha, a poucos passos de sua rua. Dia 9 era dia de Grêmio em campo, diante do Criciúma. Josué não perdia um jogo. Ia ao bar na frente de casa, sempre com seu amigo Lissandro, volante, 14 anos, uma categoria acima. Vanusa costumava acompanhar também. Naquele início de noite, resolveu ir um pouco depois. Só fez um pedido aos meninos (havia um outro garoto ainda, chamado Bruno):
- Peguem uma mesa próxima à TV, que eu já estou indo.
Viu, minutos depois, Lissandro invadir o apartamento em desabalada corrida. Era a notícia do acidente.
Josué ganharia videogame no Dia das Crianças
Horas antes, um dos empresários responsáveis por manter o apartamento preenchera a tarde dos garotos com um Play Station 3. Ali, Vanusa teve a ideia de dar a Josué um videogame de Dia das Crianças. E também uma TV maior. Mais um objetivo interrompido. O futuro igualmente está em suspensão. Vanusa, 35 anos, segue em Porto Alegre, ainda está pensando como lidar com a perda. A ideia de voltar ao município de pouco mais de 7 mil habitantes não lhe agrada. Embora tenha sido difícil se adaptar, passou a gostar da capital. O sorriso de Josué a cada jogo, a cada treino, a cada conquista na base tricolor fazia de Porto Alegre um lugar melhor.
- O rumo da minha vida era ele - suspira a mãe, que há quatro anos também perdeu o marido em um acidente de trânsito e hoje se sustenta como empregada doméstica, depois de abandonar uma plantação de fumo no Interior.
Gols eram comemorados com mãos aos céus
O Grêmio, com a torcida Geral, promete uma homenagem na noite desta quarta-feira na Arena, dia de jogo contra o Corinthians - Josué fora ao estádio duas vezes (contra Ponte Preta e Portuguesa, os ingressos ainda estão guardados). O amigo Lissandro se antecipou e mostrou a Vanusa uma camiseta que mandou fazer, com o dizer: "Josué, toda a vitória será por ti". Usará no sábado, no próximo confronto do time sub-14. O volante nunca vira o amigo jogar pelos horários distantes das diferentes categorias, mas a mãe garante a qualidade em campo do filho que partiu. Corpulento, tinha 1m72cm com apenas 13 anos. Por isso, virou centroavante.
Evangélico, não era de frequentar cultos, mas não dispensava uma oração antes de dormir. A cada gol, mãos para cima, em gratidão a Deus. Vanusa lamenta ter assistido a apenas dois jogos, a distância das partidas no Interior atrapalhava. Acompanhou uma partida em que Josué entrara faltando minutos para o confronto acabar. Ficara indignada.
- Mãe, é assim mesmo. O importante é que joguei. Olha quantos não jogaram - alertou o menino à época, fazendo aflorar sua personalidade tranquila e madura, que também tinha espaço para o funk e até improvisações no pandeiro do amigo Lissandro.
Mesmo pouco assídua aos jogos, Vanusa se sente recompensada. Estava fazendo de tudo, o possível e o impossível, para ver o sonho do filho único virar realidade. Que era o sonho do pai. Daniel morreu também em outubro, mas de 2009, em acidente com seu caminhão. Juntos, estavam esposa e filho. Vanusa segurou o pequeno Josué com toda a força que uma mãe pode reunir. O salvou. Daniel partiu com o desejo não satisfeito de se tornar jogador, embora tivesse passado em testes no Internacional, de Santa Maria. O garoto, portanto, dobrou a sua vontade:
- Vou realizar o meu sonho e o do meu pai - dizia, insistente, ainda nos tempos de Avenida, clube de Paraíso do Sul.
Desde 1º de abril em Porto Alegre, venceu duas seletivas até fincar pé no Grêmio. Comemorou o seu último aniversário em 30 de abril, nesse mesmo apartamento, com Lissandro e Vanussa e um bolo modesto. A vela, claro, só podia ser do Grêmio. Mesmo tema da cuia de chimarrão que acompanha e embala os pensamentos ainda atarantados da mãe em busca de rumo.
Inteligente, Josué estudava o necessário, mas sempre ia bem. Tanto que já estava praticamente passado no ano letivo do Colégio Duque de Caxias. Brincava com Lissandro, preocupado com a temida recuperação.
- Naquela quarta-feira (dia do acidente), ele chegou todo feliz à tarde, falando de sua notas no colégio - lembra Vanusa, colorada que acabou virando gremista aos oito anos de idade:
- Uma tia minha disse que me daria um grande presente se eu trocasse de time. Troquei e ela nunca cumpriu a promessa. Mas, anos depois, Deus me deu o maior presente, o meu filho.
O presente lhe fora tirado abruptamente. E de forma prematura. Josué não resistiu a uma cirurgia no dia 18 e foi sepultado no sábado, na terra nala, junto do pai. Vanusa se conforma, acredita que "era a hora". A mulher que conduzia o veículo que o atropelou prestou todos os socorros e inclusive a interpela por meio de ligações. Mas ela não quer saber de mais "detalhes":
- Não tem culpados. Como não houve quando meu marido morreu.
A preocupação de Vanusa agora é deixar a mensagem aos pais cautelosos de que o sonho de um filho não tem preço. Vale tudo. Pode custar uma mudança de cidade, apertos financeiros, incertezas e aflições. Porque tudo se paga com um sorriso. A único foto que tem em seu apartamento, da cerimônia de confirmação religiosa, é a prova fiel de que Josué era feliz. Muito por isso, não só ele, mas Vanusa também cumpriu a sua missão.
Fonte:Globo Esporte