03-12-2013/15:09:09
Planejamento e merecimento: a Chape histórica de 2013 em atos
Retrospectiva Série B: do discurso de cautela à elite, Verdão do Oeste se apresenta ao Brasil, marca seu nome no ano e debuta na Série A em 2014 com moral elevado.
História começou em 2012, com acesso à Série B (Foto: Sirli Freitas / Agência RBS) |
Lucas do Rio Verde, 8 de novembro de 2012; Chapecó, 16 de novembro de 2013. A Chapecoense entrou em campo e não venceu nessas duas datas. Não triunfou, mas comemorou mais do que um triunfo. Na cidade do Mato Grosso, no ano passado, o Verdão do Oeste perdeu por 1 a 0 para o Luverdense, mas, vencedor no jogo de ida das semifinais da Série C, conseguiu o acesso à Série B. Neste ano, já na Segundona, o empate em 1 a 1 com o Bragantino em casa bastou para a Chape fazer história e conquistar pela primeira vez o direito de jogar a Série A do Brasileiro. (Na década de 70, disputou a primeira divisão, mas em outro formato)
O que muitos achavam irreal foi conquistado com planejamento, inteligência, bom futebol e merecimento. Essa última palavra foi uma das mais usadas pelo técnico Gilmar Dal Pozzo, talvez o principal responsável pelo acesso histórico à elite do futebol nacional. Ao lado do treinador, a estrela de Bruno Rangel brilhou. Os 31 gols do atacante, artilheiro isolado da Série B, foram primordiais pela campanha irreparável. Regular, o time catarinense não deixou o G-4 da Série B uma vez sequer, fato que nem o Palmeiras atingiu – a pior colocação da Chape foi ser terceiro, na 2ª rodada.
Fora de campo, cabeças pensantes e ambiciosas transformaram o time do Oeste de Santa Catarina num modelo a ser seguido. Com pés no chão, o presidente Sandro Pallaoro, o vice de futebol João Carlos Maringá, o diretor Mauro Stümpf e o gerente Cadu Gaúcho montaram o time que, primeiro, pensava em não voltar para a Série B. Depois de algumas rodadas, porém, a cautela virou ambição, a Chape se transformou em sensação, o sonho se tornou realidade e a Série A chegou para Chapecó.
COM PLANEJAMENTO. E PLANEJAMENTO PRÉVIO
A palavra que ajuda a resumir o acesso da Chapecoense é: antecedência, não só pelo acesso na 36ª rodada, duas antes do final. Numa das entrevistas concedidas ao longo desta Série B, ao criticar o adiamento de mais uma partida em Chapecó, contra o Figueirense, em razão do mau tempo e o fechamento do aeroporto da cidade, o técnico Gilmar Dal Pozzo desabafou, e revelou o que poucos sabiam.
– Minha indignação do adiamento é que a comissão técnica não foi consultada, porque tínhamos um planejamento. Antes da final contra o Criciúma, no Estadual, planejamos nossa estreia na Série B dois dias antes, mesmo estando no meio de uma decisão, porque sabíamos do aeroporto. Nosso planejamento está sendo bem feito, mais que outros times – disse o técnico da Chapecoense no dia 17 de setembro.
Planejar com antecedência deu certo. Para a estreia na Série B, contra o Boa Esporte, em Varginha, Minas Gerais, o elenco do Verdão viajou dias antes da partida, pouco depois de perder o título do Catarinense diante de sua torcida. A estratégia valeu a pena. Mesmo com quatro mudanças em relação ao time que venceu o Criciúma, mas que ficou com o vice no Estadual, a Chape não tomou conhecimento do conjunto mineiro e venceu por 4 a 1, com dois de Bruno Rangel, que viria a ser o nome do time dali para frente.
A sequência depois da estreia foi extraordinária, com mais nove jogos de invencibilidade, sendo sete vitórias e dois empates. A pontuação alcançada nessas partidas fez o time surpreender a todos, inclusive o Palmeiras, favorito disparado ao título. Resultado: liderança até a 15ª rodada. Depois disso, exatas 19 rodadas na vice-liderança. A pior colocação foi na 2ª rodada, ao ‘cair’ para terceiro, após empatar com o Oeste ‘em casa’ – por cumprir punição sem um mando de campo, a Chape recebeu o jogo contra os paulistas de Itápolis no Colosso da Lagoa, em Erechim.
O planejamento prévio para a Série B, porém, só foi possível com um plano já no início do ano, visando se preparar para a histórica participação na Série B. Dos jogadores que foram utilizados no Catarinense, apenas uma baixa: o atacante Ronaldo Capixaba. Com quase 100% da base mantida, incluindo o atacante Rodrigo Gral, que pediu um tempo para pensar se encerraria a carreira, a Chape se manteve sólida durante a Segundona.
A ARRANCADA PRIMORDIAL
Foram cinco vitórias e um empate nas seis primeiras rodadas. Essa campanha, avaliam o técnico Dal Pozzo e os dirigentes, foram preponderantes para fazer todos no clube acreditarem ser possível pensar mais do que apenas a permanência na Série B. E isso foi planejado. Sabedores que o campeonato pararia durante a Copa das Confederações, o pensamento era de arrancar forte nos seis primeiros jogos. E deu certo. Até a competição internacional começar, a Chape era a líder.
E assim seguiu, na liderança, até a 15ª rodada, virando sensação no futebol brasileiro e ameaça real ao Palmeiras, candidatíssimo ao título e líder a partir da rodada seguinte até o final da Série B. Com 16 pontos na primeira parte do campeonato, a Chapecoense deixou sua marca logo de cara, mostrando que seria, sim, possível alçar voos mais altos dentro da própria competição nacional. O que de fato seria comprovado com três rodadas de antecipação.
O ‘EXCEPCIONAL’ RANGEL
No Campeonato Catarinense, Bruno Rangel chegou a ser a quarta opção do ataque, atrás do ídolo e então artilheiro Rodrigo Gral, de Fabinho Alves e até Ronaldo Capixaba, que saiu antes da Série B sem deixar saudades na torcida. Com pouco brilho nos últimos clubes em que havia passado, Joinville e Metropolitano, Rangel chegou ao Verdão para compor elenco. Mas a história mudou após o final do Estadual.
O ensaio começou no segundo jogo da decisão. Precisando vencer, Dal Pozzo escalou o time com três atacantes, sendo Bruno Rangel um deles, ao lado de Fabinho Alves e Rodrigo Gral. Rangel não marcou, mas não ficou longe das redes por muito tempo. A vaga no time titular caiu no colo. Ao mesmo tempo em que Ronaldo Capixaba deixou o clube, Rodrigo Gral pediu um tempo para pensar no seu futuro. Com isso, a camisa 9 recaiu a Rangel, que não demorou a mostrar seu valor. Na estreia da competição nacional, dois gols, os primeiros de muitos na Série B, rotina que fez o comandante se render a ele.
– Excepcional. Ele está sempre no momento certo. Ele se posiciona muito bem, é um jogador muito frio, tem um poder de finalização. A gente treina e repete muito os fundamentos, mas são jogadores diferenciados, vive um grande momento. A equipe toda está jogando em função dele, fazendo a tabela, dando assistência – elogiou certa vez Dal Pozzo.
Para se ter ideia da grande fase do atacante, até a 14ª rodada – ele não atuou na seguinte, lesionado – foram 16 gols marcados, média de mais de um gol por jogo. Depois disso, mais 15 tentos, que somam os 31 que marcou nesta Série B. Após marcar o gol de empate contra o América-MG, na 28ª rodada, uma seca de sete partidas atingiu Rangel. Fase ruim, mas momentânea. Nos quatro jogos seguintes, quatro gols, incluindo um em cada jogo dos acessos, o extra-oficial, na vitória sobre o Paraná, e o oficial, no empate com o Bragantino, além da partida final, no 1 a 0 sobre o Palmeiras.
O recorde de gols numa única edição de Série B, que era de Zé Carlos, autor de 27 pelo Criciúma em 2012, ‘passou da conta’. Com 31 tentos nesta Segundona, Bruno Rangel crava uma marca histórica, que pode não ser alcançada muito cedo, se alcançada...
AS VIRADAS, REAÇÕES E VITÓRIA SOFRIDAS
A torcida da Chape passou praticamente toda a Série B com o sorriso de orelha a orelha. Mas a alegria, em alguns jogos, só foi possível depois de algumas viradas e reações espetaculares, sempre nos últimos minutos. A primeira foi logo na 3ª rodada, quando o zagueiro André Paulino, aos 45 minutos do segundo tempo, fez o gol solitário da vitória sobre o São Caetano, fora de casa. Três rodadas mais tarde, em Chapecó, uma das vitórias mais marcantes da campanha. Após estar vencendo o Paysandu por 2 a 1, o Verdão levou o empate aos 44 do 2º tempo. Apesar do baque, Dal Pozzo mandou seu time acreditar até o apito final, e foi recompensado com mais um gol de Rangel no jogo, o seu segundo, aos 45, dando a vitória à Chape.
Na 8ª rodada, na Arena Joinville, um susto: aos 36 do primeiro tempo, o JEC vencia por 2 a 0. Isso até o ataque do time da casa mostrar seu valor, primeiro com Rangel e depois com Soares, aos 34 do 2º, deixando tudo igual no Oeste. Em grande forma, o camisa 9 verde fez uma de suas melhores atuações pela Chape na 12ª rodada, contra o Sport, na Ilha do Retiro, ao empatar o jogo ao 44 e virar aos 47 minutos da etapa final, dando a vitória por 2 a 1. Rangel voltaria a marcar duas vezes num mesmo jogo, contra o Paraná, quatro jogos mais tarde, ao buscar a igualdade no placar com dois gols em dois minutos.
Contra o Joinville, dessa vez pelo returno, outros dois gols do artilheiro do Verdão, que deram a vitória sobre o rival catarinense, sendo o segundo tento aos 43 do 2º. Para fechar com chave de ouro a série de vitórias suadas, Rangel entrou em ação de novo, mais uma vez contra o Paraná. Aos 31 do 2º, o atacante cabeceou para dar a vitória em Curitiba e fazer a equipe comemorar, ainda de forma não oficial, o acesso à Série A.
ESTRATÉGIA E FRASES QUE SEGUIRAM À RISCA
‘Marcação forte e saída em velocidade’. A poucos dias de estrear na Série B, o discurso de todos no clube do Oeste era único e unânime: se manter na Segundona para o ano seguinte, já que o clube era um dos que haviam subido da Série C. Por isso, Gilmar Dal Pozzo armou um esquema para se garantir para a temporada seguinte, não com retranca, mas com cautela. A estreia deu mostras do que seria o time, principalmente no meio-campo, que começou com Wanderson, Augusto – novidade na equipe –, Diego Felipe e Athos, o único armador. Em diante, a mesma coisa, variando poucas vezes, com os retornos dos até então lesionados Paulinho Dias e Nenén.
A ideia geral, porém, era a mesma. Marcar forte, aproveitando as roubadas de bola de Wanderson, principalmente, e explorando a velocidade de Augusto pelo meio e os atacantes ‘leves’ pelo lado, primeiro Fabinho Alves e depois Tiago Luís. A estratégia deu certo, e a Chape se manteve invicta até a 10ª rodada. Mesmo após duas sequências sem vitória, como entre a 17ª e 19ª rodadas e depois a de sete empates seguidos, a base do esquema tático se manteve, com uma rápida variação para o 4-3-3, que não se mostrou muito eficaz.
Outra frase marcante, mesmo quando o acesso à elite do futebol brasileiro já era iminente, foi ‘jogo a jogo’. Na ponta da língua, o técnico Gilmar Dal Pozzo e seus comandados proferiam a sentença após cada rodada, tudo para conter a euforia de um acesso com muita antecedência, o que realmente estava muito perto de acontecer. A data era certa para parte da torcida: dia 22 de outubro, no jogo adiado contra o Figueirense, que viria a ser o terceiro de uma série de três jogos seguidos em casa. Os empates, porém, postergaram o acesso.
OS EMPATES, AS VAIAS E A CERTEZA DO ACESSO
Quando parecia que o acesso chegaria naquela partida adiada contra o Figueira, veio o pior momento do time na Série B. Após ficar na igualdade com Ceará, Sport e o rival de Florianópolis em casa, novos empates na estrada, contra Atlético-GO e Guaratinguetá, fizeram a Chapecoense ligar um pequeno alerta. A resposta, de preferência com o acesso, era esperada contra o América-RN, em casa. Mas a vitória não chegou.
O ponto conquistado, porém, o sexto em seis jogos, foi ‘aceito’ pelo grupo. Não tanto pela torcida, que proferiu as primeiras vaias à equipe já no intervalo do duelo contra o Mecão. Com o resultado mantido em empate após o apito final, mais vaias da torcida ecoaram no Índio Condá. Nos dias seguintes, porém, o discurso do treinador era otimista.
– Não sei a hora, o dia, não tem ninguém que consiga afirmar e confirmar que será em determinado momento. Vai subir, mas vai conseguir o objetivo se fizer por merecer.
E a Chape fez por merecer. Primeiro, comemorou o 'acesso' no dia 12 de novembro, com a vitória sobre o Paraná Clube, o suficiente para jogadores, comissão e dirigentes fazerem a festa em plena Vila Capanema, mesmo que, matematicamente, a elite estivesse ainda por um ponto. E esse ponto chegou na rodada seguinte, contra o Bragantino, no dia 16 de novembro, para confirmar a classificação e marcar a data na história do clube do Oeste de Santa Catarina, agora parte do grupo dos 20 clubes da elite do futebol brasileiro em 2014.
Fonte:Globo Esporte