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Do pai colorado ao susto com relíquia
Do pai colorado ao susto com relíquia

11-12-2013/10:35:40

 

Do pai colorado ao susto com relíquia: 1983 ainda ecoa na terra de Renato

 

GloboEsporte.com visita Bento Gonçalves, mostra camiseta do Mundial que quase fora roubada e relembra Francisco, que não assinou contrato para filho ir ao Grêmio

Camisa de Renato ainda conserva rasgões, 30 anos depois (Foto: Lucas Rizzatti/Globoesporte.com)

Maio de 2006. O Grêmio recebe o Vasco, pelo Brasileiro. Maicon aproveita a oportunidade para rever o mais ilustre familiar do clã dos Portaluppi. Vai a um hotel de Porto Alegre com uma mochila cheia de camisetas para Renato, então técnico cruz-maltino, autografá-las. Todas dadas de presente pelo próprio tio famoso, ao longo de sua carreira como atacante endiabrado. Entre as dezenas de mantos e cores, uma peça faz Renato parar, respirar fundo e sorrir:

- Está vendo esses rasgões? É de tanto os alemães tentaram me puxar para todos os lados. Ó (depois de assinar), guarda essa camisa.

A suspeita de Maicon estava certa. Era a camiseta com que Renato conquistou o título mais importante da história do Grêmio. Com que fez os dois gols do 2 a 1 sobre o Hamburgo em 11 de dezembro de 1983, uma façanha ímpar que, nesta quarta-feira, completa 30 anos. Ele usou um exemplar em cada tempo - a outra camiseta mora na Alemanha, curiosamente com a sua vítima na partida, o ex-lateral boa-praça Schröder, hoje funcionário do mesmo Hamburgo.
>>> Site especial reconta toda a saga dos 30 anos do Mundial

A relíquia em forma de pano mora em Bento Gonçalves, numa simpática casa tingida de verde claro. É onde mora uma das irmãs de Renato, Dona Iris. É a sétima filha de um total de 13 da família construída pelos já falecidos Francisco e Dona Maria - o técnico é o 12º filho. E a casa tem tudo a ver com o Mundial. O terreno fora um presente de Renato a Iris logo após o seu retorno do Japão. Bento Gonçalves, cidade aninhada na serra gaúcha, movida pela uva e pelo vinho, tem ainda muito de Renato, embora sua última aparição, em 2010, tivesse sido pelo triste motivo da morte da mãe à qual era tão apegado. Nascido em Guaporé, também na Serra, rumou a Bento com três anos, começou a trabalhar cedo e ainda precisou conviver com a resistência do pai, tão doente pelo Inter que se negara a assinar o contrato para o filho jogar no... Grêmio! Por um fio, o Mundial não virara pó antes mesmo de 1983 bater à porta... Coisa de destino. A cara de Renato.

PAI COLORADO NÃO ASSINOU 1º CONTRATO
Seu Francisco, um humilde gauchão do Interior, não viu seu filho mais ilustre redigir a página mais gloriosa do Grêmio, já havia partido um ano antes. Mas o resto dos Portaluppi, Bento Gonçalves e todos os azuis vibravam com a transmissão de Tóquio - Dona Maria só chorava, puro nervos. Anos antes, quase que seu Francisco, sem saber, impediu a maior façanha azul. Recusara-se a assinar o primeiro contrato do rebento com o Tricolor.

Dona Iris se lembra como se fosse ontem. Era 1º de Maio, feriado do Dia do Trabalho. Ela e o irmão Adão estavam num almoço comemorativo quando viram, à porta, postados Valdir Espinosa, ainda em sua primeira passagem como comandante do time tricolor, início dos anos 1980, e um dirigente do clube, saídos da casa de Francisco com aquelas caras de que haviam falhado na missão de convencer o patriarca, uma vez que Renato era menor de idade.

- No fim, o Adão é que teve que assinar - conta, atônita. - Engraçado que só o nosso pai e um outro irmão eram colorados na família. O resto, tudo gremista.

Mãe de Renato, Dona Maria era uma entusiasta pela assinatura do contrato na ocasião. Até porque foi ela que, sem querer, acabou descobrindo a vocação do filho. Ainda adolescente, Renato trabalhava no setor de expedição de tradicional fábrica de móveis Todeschini. Com seu porte físico avantajado, era o encarregado de encher os caminhões de peças a serem vendidas. Na cabeça de Dona Maria, o ofício se dava em tempo integral. Por isso, estranhou o salário muito aquém. Foi ao emprego do filho reclamar. Recebeu a curiosa resposta:

- Dona Maria, ele trabalha meio turno aqui.

Preocupada, descobriu que a outra parte do dia Renato usava para treinar no Esportivo. Com medo do que a família, sobretudo o pai, pudesse pensar, escondeu o talento. Por pouco tempo. Subiu precoce aos profissionais e teve contato com Valdir Espinosa, como rival em treinos (um era ponta, o outro, lateral) e também como treinador. Daí a natural indicação posterior para rumar ao Grêmio.

- Ele sempre diz que passavam por cima de mim no campo… É aquela coisa: mentira muitas vezes ditas vira verdade - se diverte Espinosa, com um automático brilho no olhar ao discorrer sobre o eterno pupilo.

Quem jogou com Renato ainda nos tempos de Bento é unânime: o jogador sempre fora atrevido, de personalidade forte, aproveitando a seu potencial físico diante dos rivais. Também falam de sua predestinação. Estreou no time profissional do Esportivo exatamente contra o Grêmio, no Olímpico, porque o ponteiro titular João Carlos estava suspenso.

- Era muito ousado, irreverente, assim como vocês o conhecem hoje - atesta o ex-lateral-esquerdo Raquete, hoje vereador na cidade.

- Venceu por sua personalidade - elogia Silvio, ex-meia que conviveu com Renato ainda na base do Esportivo.

 Em outras palavras, era um chato em campo! - resume com bom humor Celso Freitas, ex-volante, quase 30 anos como técnico pelo Interior. - Às vezes, a torcida xingava por ele não largar a bola. Certo dia, foi até o alambrado, apontando o dedo, para tirar satisfação.

Isso que Renato nem havia conquistado o mundo. Esse jeitão, na verdade, vem muito antes dos primeiros passos no futebol profissional. Ainda na fábrica de móveis, Renato disputava todos os torneios internos possíveis entre os departamentos da empresa. Não era só futebol, não. Arriscava-se no salão, no vôlei, no basquete…

Costumava travar duelos curiosos com Sérgio Luiz Guerra, zagueiro oriundo área dos protótipos da firma. Ele lembra das provocações que Renato fazia para tentar distraí-lo. Sua resposta? Ser duro nas divididas. 

- Ele gostava de uma briga. Mas era muito bom, sempre o melhor. Embora, muitos apostassem mais no Mauro (irmão de Renato, que chegou a ser atacante) - sorri Sérgio, nostálgico, com 42 anos de empresa.

Lá, Sérgio conheceu Maria, do marketing, sua esposa, que também se lembra de Renato com irreverência. Recorda-se, sobretudo, das reprimendas que aplicava no garoto pelo modo como tratavas as garotas mais novas.

- Sempre teve fama de mulherengo. Ele nem olhava para o rosto delas, às vezes chamada de gostosa. Mas elas gostavam! - conta, bem-humorada. 

Brincadeiras à parte, o casal não disfarça o orgulho em conhecer um dos morados mais famosos da região. Atestam que, nos anos 1980, sempre que os via, Renato os cumprimentava, bem educado. Mais do que isso, ainda em 1983, após a conquista do Mundial, o atacante voltou a Bento Gonçalves, vestido com uma camiseta do Hamburgo, que era de seu marcador Schröder, e fez questão de ir até a fábrica. A visita histórica foi registrada numa das edições da revista interna da empresa, que guarda também seu período como empregado: de 26/04/1977 a 03/08/1979.

Na ocasião, Renato também passou pela padaria do Seu Azir, seu primeiro ofício, ainda na infância. Era a chance de ganhar o seus trocados. O pequeno Portaluppi morava perto e foi recrutado para ajudar na cozinha. Não tinha contato com a clientela. Seu papel era moldar o pão, transformar a massa em bolinhas perfeitas e levá-las ao forno. O tempo livre usava para jogar bola nos arredores.

Seu Azir morreu, mas a esposa, a simpática Dona Eli Favaretto, segue tocando o negócio. Hoje, a padaria ganhou ares modernos, está sempre lotada, sortida de opções e com reluzentes televisores. A proprietária lembra com carinho do funcionário. Garante que era, quem diria, muito disciplinado.

- Nunca chegou atrasado. Mas nós sabíamos que o negócio dele era jogar futebol. O meu marido o incentivava muito. Acreditava que poderia dar em bom jogador - conta.

O ponto alto de seu retorno a Bento Gonçalves após agarrar o mundo foi mesmo o encontro com a família. Foi ao rever a irmã mais velha que a história da camiseta tricolor encontra a sua origem. Renato levava o pano dobrado sobre um dos ombros. Chegou para Iris e recomendou:

- Guarde bem essa camisa. Deixa o Leonardo decidir o que ele quiser, gremista, colorado… Mas, se for gremista, dê a camisa para ele.

Leonardo tinha um ano em 1983. Estava sentado no sofá, assistindo ao tio detonar o Hamburgo embora não tivesse ideia do que se passava. Hoje, cabe a ele guardar a camiseta do Mundial com esmero incomum. Chega a comentar com o irmão Maicon o perigo que passaram ao, por vezes, jogar peladas com o manto, antes de se lembrarem e se certificarem de seu significado. Hoje, a relíquia não tem preço.

- Não vendo por nada nesse mundo - afirma Leonardo, olhos marejados, que sofreu pressão de familiares colorados para 'virar a casaca' na infância.

Mas a camisa por pouco não fora roubada. O incidente ocorreu em 2005, poucos meses antes de o irmão Maicon confirmar a autenticidade da relíquia. A família comemorava o acesso à Série A, na Batalha dos Aflitos, em grande carreata pelas ruas de Bento Gonçalves. Dona Iris estava com essa camisa e outra branca na mão, e a janela aberta. Um homem de moto passou e... levou justamente a tricolor! Leonardo aproveitou o acostamento livre e conseguiu aproximar o seu veículo do malandro sobre duas rodas. A insistência dos Portaluppi foi tanta que assustou o ladrão, que jogou a camiseta no chão.

- Ele deve ter pensado: 'que gente louca, imagina o que não fariam por uma camiseta nova?' - conta Leonardo, às gargalhadas.

Agora, a camiseta, antes ofuscada em meio a tantas outras no guarda-roupas, não sai da casa verde de Dona Iris e Leonardo - Maicon passou a morar no Rio de Janeiro. Casa essa fruto do título mundial, assim como o manto tricolor. Que segue pé-quente. Nas duas vezes em que "visitou" a Arena, a peça viu o ex-jogador que a vestira vencer como técnico, diante de Botafogo e Fluminense. Puro destino. Predestinação. Estrela. Não poderia, portanto, ter outro dono que não fosse Renato, o 12º dos Portaluppi de Francisco e Maria. O primeiro herói de todo o gremista.

 

 Fonte:Globo Esporte