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Quase abandonou a carreira
Quase abandonou a carreira

09-05-2014/07:40:10

Após cogitar parar, Maurides supera drama de salto mortal: "Não tive culpa"

Há 300 dias, atacante lesionou joelho ao celebrar 1º gol com pirueta. Em busca de chance, diz que se inspirou em Ronaldo e no amor à namorada em dura recuperação

A antiga comemoração e a futura forma de celebrar: homenagem à namorada (Foto: Reprodução)

O pátio da casa na pequena Planura, encravada em Minas Gerais, era o palco em que o então pequeno Maurides, nascido em Colômbia, São Paulo, esboçava as primeiras piruetas. Tinha nove anos. Brotaram dos pés muito antes de o futebol abocanhar sua vida, aos 13, quando resolveu largar o sonho de ser lutador para correr atrás da bola. Por causa dessa brincadeira de criança, quase encerrou a carreira. Agora, é com a alegria típica dos meninos livres do interior que o centroavante do Inter costuma chegar ao aconchego do lar. Cada treino com bola é uma vitória. Saboreia um a um porque também aprendeu a contar, dia a dia, o tempo de sua parada. Que, nesta semana, alcançou 300 dias. No sábado, fecha dez meses. Dono de um mortal após gol que acabou virando lesão quase interminável, o jogador abre as portas do apartamento em que vive em Porto Alegre para falar da dor que se transformou em esperança. Maurides crê ter dado seu grande salto. A maior das viradas. Apoiado por uma paixão na hora certa e inspirado na saga de Ronaldo Fenômeno, anuncia que está pronto para voltar.

- Tenho tudo gravado na cabeça. Todos os dias desde que eu me machuquei. Essa lesão nunca vai sair da cabeça. Por tudo que passei. Nunca vou esquecer. Não tem como. Foi a pior coisa da minha vida. Agora, só penso em jogar - avisa, em conversa com o GloboEsporte.com.

salto mortal ensaiado desde os 9 anos

O tom grave na declaração de frases fortes oculta um Maurides leve. Há aprendizado, sim, mas não existe trauma. Ele brinca, ri, consegue achar graça e inclusive afirma ter visto e revisto várias vezes o salto da noite de 10 de julho de 2013. Era o seu décimo jogo como profissional. Atendeu ao chamado de Dunga e entrou em campo. Surgia a chance de cumprir a profecia dita ao roupeiro Bigode antes de a bola rolar.

- Vou entrar e fazer um gol - cravou.

Antes ainda, ao seu pai, o senhor Maurides Roque Neto, havia dito que faria o seu primeiro gol como profissional do Inter com D’Alessandro em campo. A realidade se mostrou ainda melhor. O passe para o gol saiu do próprio camisa 10. Balançar a rede sempre foi rotina, desde os tempos de América-SP e ainda mais depois de chegar ao Beira-Rio, sozinho, com 15 anos, quando precisou superar, além da solidão, o desconhecido frio dos pampas - dois amigos desistiram. Comemorar com a cambalhota também era praxe dentro de uma família de boleiros - os irmãos igualmente são jogadores: Maicon, zagueiro do Porto-POR, e Muller, defensor do Bragantino. O gesto, portanto, saiu espontâneo. A dor, insuportável.

- A cambalhota eu sempre fiz, desde criança. Desde os nove anos. Eu fazia judô, jiu-jitsu e capoeira, até pensei em ser lutador antes. Eu não imaginava que isso ia acontecer comigo logo no meu primeiro gol como profissional. Era uma dor que eu não sei até hoje como explicar. Na hora, eu pensei: quebrei o meu joelho, nunca mais vou conseguir ser jogador de futebol. Acabou tudo. Não sabia o que fazer. A minha rótula havia saído fora. Fui botar o pé no chão e não consegui.

 

Assim que o pé direito encontrou o piso do Estádio Centenário, em Caxias do Sul, Maurides nunca mais se levantou. O Inter venceria aquele jogo morno de Copa do Brasil por 3 a 1. O promissor centroavante, então com 19 anos, sairia com a sua grande derrota pessoal diante de uma carreira que soava promissora - estreara em maio de 2012 num elétrico 3 a 3 com o Flamengo no Engenhão, com direito a quadro do jogo exposto na parede de casa.

Chegou em casa por volta das 3h, uma madrugada de tristeza. O pai o recebeu sob choro. O mesmo pai que havia aconselhado o filho, 1m89cm, a ser centroavante, sob o argumento de que “goleiro não se destaca, não é vendido”. Santo conselho. No entanto, naquela noite, não restava palavra alguma a ser dita. O vazio aumentou no dia seguinte, com a confirmação de que seria necessária uma cirurgia para refazer os ligamentos do joelho direito.

 

- A dor que não é física, a da impotência, é a pior. Eu via meus amigos jogando, queria tirar todas as proteções e ir para o jogo. Fiquei um mês sem colocar o pé no chão. Eu não via os jogos para não ficar triste e me lembrar da cambalhota. Mas, por outro lado, eu pensei... Não tive culpa. Ninguém teve culpa. Eu ia seguir fazendo o salto se eu não me machucasse. Era uma marca registrada. Mas agora nunca mais - explica.

 

dura recuperação e inspiração em ronaldo

 

Não bastassem o choque, a dor, o mar de coincidências infelizes, ainda estava por vir uma longa e tortuosa recuperação. A ideia inicial era que durasse três meses. O prazo estourou. E muito. Tanto que, há apenas um mês, Maurides conseguiu começar a treinar com bola. O departamento médico do Inter classifica essas intempéries como “regressões” no tratamento.

Houve duas fases mais complicadas, numa trajetória de superação que ganhou um espelho: vida e obra de um dos maiores atacantes do mundo. Ronaldo Nazário, o Fenômeno que, após duas cirurgias no joelho direito, tornou-se o maior artilheiro de todas as Copas.

- Eu vi a lesão do Ronaldo, como foi. Vi que dois anos depois ele foi para a Seleção. Ele superou tudo. Aquilo me motivou mais ainda a voltar a jogar. Ele é um ídolo para o mundo inteiro. Fui botando na cabeça que eu ia conseguir - explica Maurides, que, em campo, vê semelhanças físicas com Adriano Imperador, em sua boa fase, é claro.

Perto dos dois meses de recuperação, o primeiro contratempo, ainda na sala de musculação. O joelho sangrou por dentro, inchou. E murchou um esperançoso jogador:

- Se não fosse a família, não ia aguentar. Eu falava que não ia dar, que não ia voltar a jogar. Já pensei em parar, sabe… ficar por aqui mesmo. Mas ela me deu muita força.

 

A família vai muito além do pai. Há o empresário zeloso, os preocupados sogros, que o acolheram na casa da namorada Gabriela. Maurides reconhece, com os olhos cintilando, que a amada é a grande responsável por ele reunir disposição para recomeçar mais uma vez. Ela chegava a brigar com ele, para convencê-lo a ir treinar.

A desmotivação era um fantasma, sempre a rondar. Até porque houve o segundo revés. Há cerca de três meses, foi diagnosticado um edema ósseo no joelho. O pensamento lúgubre de se aposentar, no entanto, não passava mais pela sua cabeça.

- Cheguei a treinar quase um mês sentindo dor, no trabalho físico. Nada me deixava mais para baixo. Quando eu vi que eu estava evoluindo, nada mais me abalou - conta.

É verdade que Gabriela e a mãe também “exageravam” no apoio. Maurides precisou fechar a boca para as guloseimas, confeccionadas como um justificado mimo ao mais novo integrante da família. O início da recuperação registrou aumento considerável de peso, cerca de oito quilos. Que ficaram para trás. Até porque adicionou a sua rotina o saudável hábito de fazer corridas e caminhadas por conta própria, além dos treinos no clube.

 

amor na pele e nova comemoração

 

Não é só nos exercícios e na boa mesa que Maurides e Gabriela se entendem. Embora recente, a relação já foi marcada na pele do casal. Um diamante adornado pela data em que o namoro foi oficializado: 16 de agosto de 2013, um mês depois da lesão. Um verdadeiro anjo da guarda na vida de Maurides. Que espera anunciar um novo dia especial na relação, o do casamento. Fim do ano, quem sabe. Essa é a meta.

Outro objetivo claro é retribuir o apoio da amada em campo. Não é difícil imaginar que Maurides vá aposentar a pirueta. Quando voltar a balançar as redes, promete uma celebração bem mais comportada. Um beijo na tatuagem.

- Já tenho a comemoração certa na cabeça. Não vai ter lesão nenhuma - sorri, mostrando que sabe tratar o delicado assunto com leveza incomum.

A serenidade vem dos bons fluidos. Tem no sogro um colorado fanático, colecionador de camisetas. Maurides passou a ajudá-lo na empreitada e, no total, já reuniram mais de 130 mantos do Inter. Gabriela espalhou-os pelo quarto para deixar o namorado ainda mais à vontade diante das lentes, quase não deixando espaço para pés alheios.

Maurides novamente brincou:

- Quero ver quem vai arrumar tudo isso…

Difícil mesmo será arrumar um lugar no ataque. À sua frente, há Rafael Moura e Wellington Paulista. Já calejado em seus incipientes 20 anos, Maurides não se apavora. Para quem já esperou dez meses devidamente contados na cabeça, cada minuto em que puder tocar na bola será precioso.

Como o diamante desenhado no braço direito. Como o amor por Gabriela. E a paixão pelo futebol. A dor que fique no passado. Assim como as cambalhotas, a serem guardadas em algum canto duma infância que poderia tê-lo feito um lutador. Na verdade, por outros meios, foi nisso que Maurides se tornou. Que a luta siga em campo.

GE